Catolicismo popular
OUTRA AMAZÔNIA: OS SANTOS E O CATOLICISMO POPULAR
Raymundo Heraldo Maués Universidade Federal do Pará Professor do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais
Há diversos estereótipos em voga sobre a Amazônia, região periférica em relação ao Brasil e ao mundo. Uma dessas versões estereotipadas tem características mais ou menos eruditas. Nela, a Amazônia é pensada, basicamente, no que diz respeito a seus aspectos humanos e sociais, como área essencialmente indígena e habitada, também, por populações neobrasileiras hostis a esses índios, assim como por ocupantes motivados por interesses alienígenas, muitos deles vinculados a “grandes projetos”, perniciosos à natureza e ameaçadores do equilíbrio ecológico na grande região, mas cujos efeitos poderão se espalhar pelo mundo todo, com consequências calamitosas para a humanidade 1. Como acontece com todos os estereótipos, não deixa de haver verdade nisso, mas trata-se de verdade parcial e distorcida, que esconde outros aspectos importantes sobre esse grande território, cuja riqueza não se reduz à tão decantada biodiversidade, mas que comporta, também, grande diversidade étnica, social e cultural, o que constitui, aliás, patrimônio digno de ser conhecido e preservado (não evidentemente como algo intocável, pois os processos culturais e sociais incluem, na sua riqueza e complexidade, aspectos dinâmicos de constante mudança e atualização)2. Como antropólogo, embora já tenha escrito ensaios mais gerais sobre a Amazônia (cf. Maués 1999), desejo, neste trabalho, abordar um tema de caráter mais restrito, de que já tratei em trabalho anterior (Maués 1995), mas para o qual pretendo, aqui, chamar atenção: um aspecto do catolicismo popular de populações amazônicas tradicionais,
Ver a propósito o livro organizado (2004) por Nugent e Harris (s/d), que faz crítica semelhante aos estudos sobre a Amazônia e é, sintomaticamente, intitulado “Some Other Amazonians” (Alguns Outros