Bourdieu e a Educação Sentimental
A teorização porventura mais ambiciosa do campo literário é realizada por Pierre Bourdieu, no contexto da sua teoria geral dos campos. Não pertencendo ao âmbito deste trabalho discutir a sua validade lógica ou empírica, torna-se porém necessário apresentá-la para uma melhor compreensão da sua aplicação à literatura. Seguindo a sumarização de Dirkx (2000: 118-129) com base em Le Sens pratique (1980) e La Distinction. Critique sociale do jugement (1979), campo é definido como um espaço relativamente autónomo do espaço social nacional, organizado como um sistema relacional (estrutura de posições que um indivíduo pode ocupar) e diferencial (cada posição está associada a um capital, que é indispensável a um indivíduo possuir para ocupar determinada posição). O valor do capital é dado pela diferença face ao capital associado a todas as outras posições e pode ser do tipo financeiro, social, cultural e simbólico (específico de determinado campo). Cada campo particular é regido por uma lei fundamental (nomos) que lhe atribui autonomia relativa, e que está na base do respetivo «jogo social», uma luta generalizada em que cada agente tende a apropriar-se da definição legítima do que é pertencer-lhe, através de tomadas de posição conservadoras ou inovadoras.
A trajectória de um indivíduo entre diferentes posições é influenciada pelo capital global acumulado (por exemplo na na vida escolar, na vida familiar) e da illusio, o grau em que acredita que o jogo vale ser jogado. Esta, por sua vez, depende do habitus, um conjunto de disposições ou sistema de reflexos práticos físicos e intelectuais que resultam da acumulação das experiêncais relacionadas com o campo, incluindo aquelas ocorridas noutros campos (como a formação literária dada pela escola, por exemplo).
No campo literário a luta centra-se na tentativa de monopolização da definição legítima da palavra literatura ou da palavra escritor, desenrolando-se à medida que que surgem obras