O PARADIGMA DA IMUNIZAÇÃO
Trata-se do caráter intrínseco que cinge os dois elementos de que esta última se compõe. A imunidade não é apenas a relação que liga a vida ao poder, mas o poder de conservação da vida.
Encontram finalmente uma articulação interna, uma charneira semântica, que os coloca numa relação casual. Ela salva, assegura, conserva o organismo, individual ou coletivo, a que é inerente.
A vida a que se refere a dialética hegeliana é a da realidade e do pensamento na sua indistinção constitucional, mais do que a do animal-homem tomado como indivíduo e como espécie. O primeiro a operar em plena consciência esta transição de significado é Nietzsche. Quando ele transfere o foco da sua análise da alma ou melhor, assume a alma como a forma imunitária que ao mesmo tempo protege e aprisiona o corpo, o paradigma em questão adquire a sua particular pregnância, mas da interpretação de toda a civilização em termos de autopreservação imunitária.
Emile Durkheim, considerando aquilo que parece patológico em termos sociais como uma polaridade não só ineliminável, mas até funcional, do comportamento normal, se reclama justamente da imunologia. Mas é talvez a antropologia filosófica desenvolvida na Alemanha no troço central do século passado que constitui o horizonte lexical no qual a noção dialética de compensatio adquire a mais explícita valência imunitária.
Para reconhecera semântica imunitária no próprio centro da auto-representação moderna é preciso chegar ao ponto em que se cruzam duas linhas hermenêuticas bastante diferentes e no entanto convergentes na mesma direção. Uma parte das tensões e paixões que noutros tempos eram resolvidas pelo reencontro direto entre homem e homem tem de ser agora resolvida por casa um deles dentro de si.
A tese de que os sistemas funcionam não descartando conflitos e contradições, mas produzindo-os como antigenios destinados a reativar os seus anticorpos, coloca todo o discurso luhmanniano na órbita semântica da imunidade.