Miseria do Historicismo
“Para tornar menos abstratas as considerações que vimos fazendo, tentaremos, na presente seção, esboçar, em brevíssimas linhas, uma teoria do progresso científico e industrial. Procuraremos, desta maneira, concretizar as ideias expostas nas quatro últimas seções e, mais particularmente, as ideias de lógica situacional e de um individualismo metódico isento de psicologia. Recorro ao exemplo do progresso científico e industrial porque foi esse, indubitavelmente, o fenômeno inspirador do moderno historicismo do século XIX e porque já examinei, atrás, algumas idéias de Mill a respeito do assunto.
Comte e Mill, lembremos, sustentaram que o progresso é uma tendência incondicional ou absoluta, reduzível às leis da natureza humana. ‘Uma lei de sucessão’, escreve Comte, ‘ainda quando revestida de toda autoridade que lhe possa conferir o método de observação histórica, não deve ser acolhida antes de ver-se racionalmente reduzida à teoria positiva da natureza humana (2). Acredita ele que a lei do progresso é dedutível de uma tendência dos homens que o impele a, mais e mais, aperfeiçoar a própria natureza. Neste ponto, Mill dá completa adesão a Comte e procura reduzir a lei comtiana do progresso ao que ele, Mill, denomina ‘caráter progressista do espírito humano’ (3), cuja primeira ‘força impulsionadora... é o desejo de crescente conforto material’. Ao ver de ambos, Comte e Mill, a feição incondicional ou absoluta dessa tendência ou quase-lei capacita-nos a deduzir, a partir dela, os primeiros estágios ou fases da História, sem que se faça necessário o conhecimento de quaisquer condições históricas iniciais, observações ou dados (4). Em princípio, dessa forma poderia ser deduzido todo curso da História; a única dificuldade reside, como diz Mill, em que ‘uma série tão longa ... onde cada termo sucessivo se compõe de crescente e variado número de partes não pode ser abrangida pelas faculdades humanas’ (5). Parece óbvia a