Faleiros
A violência sexual contra crianças e adolescentes e a construção de indicadores: a crítica do poder, da desigualdade e do imaginário1
VICENTE DE PAULA FALEIROS2
A construção de indicadores sociais da violência intrafamiliar e sexual contra crianças e adolescentes é um processo que está ganhando visibilidade no conjunto da sociedade, assim como nos trabalhos científicos e técnicos.
As questões do abuso sexual intrafamiliar e da exploração sexual comercial de crianças e adolescentes vêm se tornando objeto da mídia, com reportagens, entrevistas, mas ainda não assumiram o lugar que ocupam na Europa, no espaço televisivo, com entrevistas pungentes a vitimizados e abusadores.3 No Brasil são os jornais e revistas que trazem o assunto à baila, mas podemos certamente prever algum programa do tipo "Aqui Agora" que explorará o tema.
Há, no entanto, trabalhos sérios, como a reportagem de "O
Estado de São Paulo" de 23 e 24 de novembro de 1997 sobre "abuso sexual doméstico", trazendo dados e resultados de entrevistas com
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Trabalho apresentado na Oficina de Indicadores da Violência Intra-familiar e da Exploração
Sexual de crianças e adolescentes, promovida pelo CECRIA, em Brasília de 01 a 02/12/
97.
Professor Titular aposentado da UnB. PhD em Sociologia. Coordenador do CECRIA Centro de Referência, Estudos e Ações sobre a Crianças e o Adolescente.
Ver MASUY, Christine. "Dire I'indicible, montrer I'mmontrable: comment Ia télévision evoque
Tabus sexuel" in Les Politiques Sociales 55( l&2):24-35, Mons, 1996
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VIOLÊNCIA E EXPLORAÇÃO SEXUAL CONTRA CRIANÇAS E ADOLESCENTES
pesquisadores e vitimizados. Estudos do IML de São Paulo, presentes na reportagem, feitos por Carlos Alberto Diêgoli mostram que das "2.043 queixas de abuso sexual feitas em 1995, 69,77% envolvem garotas menores de 18 anos. O pesquisador, segundo a reportagem, avalia que possam existir 17.000 casos de violência desse tipo em São Paulo, supondo que apenas de 10 a 15% dos casos sejam revelados.