Cronica do Poupa Tempo
Este dia foi de profundo desagrado. A minha infelicidade foi tanta que descontei na Rosângela. Coitada, nada tinha a ver. Eu olhava para o chão, como se esperasse a formação de um buraco pelo qual poderia fugir. Observava os relógios, como se os inúmeros encaramentos resultassem na aceleração do tempo. Tinha a sensação de que o teto estava sendo rebaixado, o que me levou a concluir que aquele era o lugar ideal para decidir sobre o meu suicídio. Deixando todo esse aspecto romantista e dramático de lado, eu me encontrava no Poupa Tempo, aquele postinho miserável para a retirada de documentos. O lugar cujo objetivo é fazer com que o cidadão brasileiro pense duas vezes antes de perder a carteira. A fila para a retirada de senha parecia uma fila para a morte, o que é irônico pois o mesmo lugar oferecia as duas opções: o suicídio e o homicídio. Era algo do tipo: "Sente aqui e se mate" ou "Entre aqui e mate alguém". E me agradeça por não falar da outra fila, pois se eu o fizesse, estaria lhe fornecendo todos os motivos necessários para o desenvolvimento de uma depressão. Pois bem, foi nessa maravilhosa forma de organização primitiva onde passei cinco horas da minha vida questionando o porquê do inferno ter sido promovido ao andar de cima. Quando achei que o inacabável estava acabando, Murphy liga e me relembra: "Se alguma coisa pode dar errado, com certeza dará". Essa ligação foi a prova de que a loucura não precisa necessariamente estar atrelada a desordens psicológicas e pode sim estar relacionada à burocracia dos órgãos federais. E foi diante das palavras de Maria da Graça, a assistente, que a coisa se deu: "Sr Carlos, o senhor terá que voltar na terça-feira porque o caso do senhor requer uma outra assistência que não tá disponível no momento, senhor". E é por esse motivo que hoje minha carteira está carente de documentos. Sou brasileiro e desisto sim, pois quem espera, nem sempre alcança.