D'os lusiadas á mensagem
Textos Informativos Complementares
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SEQUÊNCIA 2
D’Os Lusíadas à Mensagem
Os poemas de Camões e de Fernando Pessoa sobre Portugal situam-se respetivamente no início e na fase terminal do longo processo de dissolução do império. Daí notáveis diferenças, a par de afinidades sensíveis. […] Ambos se mostram impregnados duma conceção mística e missionária da História portuguesa (talvez seja melhor dizer missiònante, para evitar equívocos). D. Sebastião, n’Os Lusíadas, é um enviado de Deus incumbido de alargar a Cristandade: “Vós, ó novo temor da Maura lança, / Maravilha fatal da nossa idade. / Dada ao mundo por Deus, que todo o mande. / Para do mundo a Deus dar parte grande” (l, 6). Na Mensagem, Portugal é um instrumento de Deus, a História pátria obedece a um plano oculto, os heróis cumprem um destino que os ultrapassa: “Fosse Acaso, ou Vontade, ou Temporal / A mão que ergueu o facho que luziu, / Foi Deus a alma e o corpo Portugal / Da mão que o conduziu”. Se, n’Os Lusíadas, o nosso país é “qual cume da cabeça / Da Europa”, na Mensagem, em descrição semelhante, Portugal é o seu rosto, e a diferença reside na personificação da Europa, figura feminina, de “olhos negros”, “românticos cabelos”, o rosto apoiado na mão direita, atitude estática, pensativa. Tanto Camões como Pessoa, cantores da pátria, são poetas da ausência. Poetas do que foi ou do que poderá vir a ser. Dum amor que ou se refugia na memória ou, revigorado, se traduz na vibração dum apelo. Mas as situações divergem, um intervalo multissecular tinha de separá-los. No Camões épico predomina o elemento viril – a viagem, a aventura, o risco. Tradicionalmente, a mulher é a que fica, esperando, imóvel, na felicidade e no sonho do regresso: como Pessoa e as figuras em que se desdobra, de olhos fitos no indefinido. Homem de ação, e não só de inteligência, Camões ainda conheceu o império no concreto da sua grandeza e das suas misérias, era-lhe fácil ainda ter esperança, o