A historia da farmacia no brasil
A utilização de fontes desse tipo exige a máxima cautela pelos juízos de valor negativos de que estão impregnadas. Primeiramente, é preciso considerar que Luccock era um estrangeiro cujo referencial de 'civilização' era a Europa Ocidental. Seu ofício era o de comerciante; confessa, noutra passagem de seu relato, que de medicina nada sabia; portanto, nada mais prudente do que não aceitar pacificamente sua avaliação sobre o fato de que os procedimentos terapêuticos dos boticários eram ou não eficazes. Ainda que fosse um especialista no assunto, seus juízos não prescindiriam de cuidado, devido aos enormes preconceitos do saber médico acadêmico em relação às práticas populares. Cumpre assinalar que a maior parte dos boticários que atuavam no Brasil — até pelo menos meados do Oitocentos — assentava seus conhecimentos na experiência empírica, e não na formação acadêmica, salvo pouquíssimos graduados nas universidades européias.2 No entanto, a constatação de tamanho preconceito não significa que as observações do viajante devam ser desprezadas; elas trazem, mesmo que indiretamente, informações valiosas que permitem uma leve aproximação das relações estabelecidas entre os droguistas e seus clientes. Malgrado suas opiniões adversas sobre "os processos absurdos de tratamento" empregados pelos boticários, Luccock não consegue deixar de assinalar, estupefato, que os pacientes escapavam "vivos e inteiros", ou seja, alcançavam a cura ou, pelo menos, concluíam que a tinham alcançado. Involuntariamente esse comentário indica, portanto, que aquelas pessoas reconheciam