Psicologia e Saúde
RESUMO
Neste trabalho os autores propõem discutir um construto teórico-clínico - a perversão - de difícil consenso entre as diversas teorias que compõem o universo psicanalítico. Defende-se o "direito à diferença", como uma expressão legítima de uma forma de organização psíquica, e sustenta-se que toda tentativa de normatização e de transformação do sujeito em um "sujeito-teórico" constitui uma perversão de papel do psicanalista. Para os autores, a clínica da perversão reabre o debate sobre a disposição ética para a escuta, e coloca o psicanalista diante das moções pulsionais perversas que o habitam.
Palavras-chave: Perversão, ética, pulsão, neossexualidades
A sexualidade humana, em todas as suas múltiplas formas, variações e expressões, se constitui como um infindável campo para a investigação teórico-clínica. Teceremos, aqui, algumas considerações acerca de um construto teórico-clínico - a perversão - extremamente complexo, polêmico, e de difícil consenso entre as diversas teorias que compõem a "pólis psicanalítica". Estrutura? Desvio de uma norma? Solução? Aberração? Afinal, como definir a perversão sexual? Trata-se de algo abominável a ser censurado e punido em quaisquer circunstâncias, ou deve-se levar em consideração o direito à diferença como expressão legítima de uma forma de organização psíquica? Elisabeth Roudinesco (2007), em seu último livro, escreve que:
A perversão é um fenômeno sexual, político, social, físico, trans-histórico, estrutural, presente em todas as sociedades humanas [e questiona]: O que faríamos se não mais pudéssemos designar como bodes expiatórios - ou seja, como perversos - aqueles que aceitam traduzir por seus atos estranhos as tendências inconfessáveis que nos habitam e que recalcamos? (p. 15)
Ao dar uma dimensão histórica à perversão, Roudinesco nos remete à essência do pensamento freudiano sobre o tema, fazendo-nos refletir sobre nossas próprias moções pulsionais perversas.