Barth Mana 10 1 2004 165 162
UMA ABORDAGEM CRÍTICA
DO CONCEITO DE “ETNICIDADE”
NA OBRA DE FREDRIK BARTH*
Diego Villar
Introdução
Como Van Gennep, ou o próprio Marx, Fredrik Barth é um dos autores mais citados e, contudo, menos lido pelos antropólogos. Um exemplo dessa ambivalente devoção se encontra no trabalho recente de Françoise
Morin e Bernard Saladin D’Anglure (1997). Os dois entusiastas do norueguês afirmam, sem maiores constrangimentos, que a teoria barthiana da etnicidade assentou as bases para “uma ruptura epistemológica”
(1997:161) na antropologia — embora, para sustentar tal juízo, não tenham necessitado ir além das quarenta páginas da famosa “Introdução” a Ethnic groups and boundaries1. Não obstante, a influência da obra de
Barth parece irrefutável. Inúmeros trabalhos evocam, confessada ou dissimuladamente, sua obra mais conhecida. Na opinião de Talal Asad
(1972:74), a análise de Political leadership among the Swat Pathans (1990
[1959]) é “magnífica” e merece ser considerada “um clássico moderno”; para Adam Kuper (1983:143), Barth foi uma das figuras mais “cheias de vida” da antropologia social britânica dos anos 50 e 60. No entanto, a acolhida da obra barthiana nem sempre foi tão unânime e fervorosa. O mesmo Asad, logo após o citado elogio ao rigor (1972), dedicou páginas inteiras a criticar o magnífico clássico moderno; e um dos antigos mestres de nosso autor em Cambridge, o imprevisível Sir Edmund Leach, outorgou-lhe o obscuro estatuto de “um clássico menor”: embora a obra do norueguês tenha sido “estimulante” em sua época, “já não constitui um foco central de interesse intelectual” (Leach 1982:271).
Indo além das opiniões diversas, o certo é que as teses de Barth suscitaram grandes discussões, transformando-se em um marco para a disciplina (Wallman 1991; Cohen 1978; Morin e Saladin D’Anglure 1997).
Contudo, falar da “Obra” de Fredrik Barth não é tarefa isenta de dificul-
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dades. Note-se que nos