L gica do não padrão
Marcos Bagno lista uma série de exemplos para mostrar algumas construções lógicas do português não-padrão. Por tratar-se de uma variação enxuta, econômica, modesta e menos vaidosa, o português popular articula-se em construções mais diretas, funcionais e livres, ao contrário da norma culta, que é cultivada, redundante e regrada.
Nas frases em plural, por exemplo, a variação popular costuma utilizar apenas uma marcação de pluralidade, por entender que assim é suficiente para mostrar que os demais termos também são plural. Portanto, se na norma-padrão temos que flexionar diversos elementos para fazer as devidas concordâncias e enfim dizer "As meninas usam biquinis coloridos", no português de rua podemos dizer tranquilamente "As menina usa biquini colorido", sem qualquer prejuízo para a compreensão pois ninguém tem dúvidas que "As menina usa" se refere a várias garotas. Contudo, mesmo aí há um acordo: a marcação é feita sempre no primeiro termo da frase. Ninguém diz: "A meninas usa", ou: "A menina usam" para marcar plural. Há lógica nessas construções, assim como há uma regra regendo a construção: "Ques moleque mais levado", muito usada e aceita pelos mineiros.
A simples compreensão dos fenômenos fonéticos é capaz de demonstrar a falta de critérios dos preconceitos lingüísticos. Em algumas variedades do português, por exemplo, o fonema "lhê" simplesmente não existe. Assim, a palavra "calha" é pronunciada "cáia"; "colher" fala-se "cuié"; e "telha" diz-se "têia". Esse fenômeno chama-se assimilação, e ocorre porque os fonemas "lhê" e /y/ (símbolo usado para reprentar o i, como em saia) são produzidos quase na mesma zona de articulação na boca. Isso se chama yeísmo, e acontece em muitas línguas, como no espanhol e no francês.
Mas se essa variação é ridicularizada, outras são aceitas mesmo entre falantes cultos. Por exemplo, é perfeitamente comum a ocorrência da redução do ditongo EI em E quando está diante das consoantes J e X. Isso também