Sapatilhas acanhadas
Maycon Silva Lopes2
"Se quiséssemos trocar beijos e abraços e carícias,
Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro"
(Ricardo Reis, heterônimo de Fernando Pessoa)
Resumo
O presente artigo, integrante da pesquisa desenvolvida pelo grupo Cultura e
Sexualidade (CUS-CULT-UFBA) sobre a representação da homossexualidade nas telenovelas da
Rede
Globo, visa investigar os principais aspectos que dotaram a encenação da lesbianidade na telenovela Mulheres Apaixonadas. O trabalho pretende estudar qual identidade homossexual fora visibilizada pela trama, quais as questões abordadas pelo autor, bem como as relações de poder imbricadas em tal processo de representação midiática, que, nesse caso, privilegiou a evidência de lésbicas com características heteronormativas em performances demasiado discretas, apaixonadas, embora impedidas de, mesmo no espaço doméstico, exercer com menos pudor a sua intimidade.
Palavras-chave: telenovela – homossexualidade – heteronormatividade – representação
– gênero
Introdução – ou do armário a TV
Este texto, que apresenta as primeiras observações acerca da homossexualidade na telenovela Mulheres Apaixonadas, é parte de um projeto de pesquisa mais ambicioso, financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado da Bahia, que vem sendo desenvolvido pelo CUS (ver nota 2), em parceria com o Núcleo de Estudos em Sociedade, Poder e Cultura, da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, e
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"Sapatilhas" é uma referência à denominação, frequente em algumas comunidades LGBTs, às lésbicas que possuem estética visual e comportamento hiperfemininos, apresentando trejeitos em consonância à matriz heternormativa, e contrapondo, pois, ao típico estigma da “sapatona”, uma lésbica com trejeitos masculinizados. Além disso, sapatilhas reportam-se ao balé clássico, à mulher que performiza uma sensibilidade quase assexual.
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Graduando em