Norma
Estas meditações, faz tempo que as escrevi. Reli-as agora, e confesso não ter encontrado boas razões para mudar grandes coisas. Assim, elas ficam, do jeito como eu fui: cada coisa que se escreve é um pedaço do próprio corpo que se compartilha com outro... Fui deste jeito. Mudei. Fiquei mais velho. Coisas belas e coisas tristes me aconteceram. Estou diferente, e isto aparece nas coisas que escrevo hoje... Criei coragem para dizer as coisas com simplicidade. E comecei a perseguir a beleza, mais que a verdade. É que descobri, tardiamente, através da surpresa de amizades inesperadas, o fascínio da poesia. Que poema será verdade? Que poema será reflexo especular fiel das coisas do nosso mundo? Poemas, invocações de ausências, funduras onde nadam os desejos: é aí que os corpos se preparam para as batalhas. Seria possível isto, uma política que nascesse da canção, do transbordar da fonte? Política da ternura e não da azia, da visão utópica e não do ressentimento? Visitando a mim mesmo e lendo coisas dos mundos mágicos e dos mundos dos sonhos, aprendi que o corpo não é coisa biológica: poemas que se fizeram carne. Somos moradas de palavras, possessões demoníacas ou o vento indomável do Espírito. Palavras: continuação das mãos. Mas, forma visível das palavras. Há de se buscar a palavra que se transforma em carne: aqui, o segredo do dizer mágico. Não basta o saber; é preciso o sabor. É preciso que as palavras sejam belas, para seduzir... Criei coragem tanibém para dizer o riso. Ele sempre esteve em mim. Mas a seriedade do mundo da ciência não permite brincadeiras. Por isto que lhe falta o poder para exorcizar demônios. Tudo sério, tudo triste. Não, me enganei... Quem fica triste pode sempre ficar alegre. Mas no mundo da ciência também isto é proibido. Há de se cultivar a objetividade, uma fala vazia de lágrimas e de risos, aquele que escreve sempre ausente. Mudei-me pra outro lugar. Acontece que eu também sou parte da realidade, com minhas alegrias e