Introdução a Economia
Teoria econômica e organização social*
Roger Guesnerie**
Este artigo apresenta uma reflexão sobre a ciência econômica. Através da história da disciplina, desde Ricardo ao manifesto da Sociedade de Econometria, serão discutidas as categorias “análise” e “teoria” e sublinhados os méritos e os perigos do trabalho “teórico-quantitativo” e “empírico-quantitativo”. Abordar-se-ão também o debate social sobre as questões económicas da nossa época e o debate no interior das ciências sociais, enquadrando-se neste último uma discussão das principais características da economia. A segunda parte do artigo descreve a evolução das concepções do papel do mercado e do governo no campo económico, a qual reflete a dinâmica complexa das relações entre a observação e a reflexão, os factos e as teorias, a história e o pensamento. Far-se-á referência a alguns dos grandes problemas actuais, que determinarão a forma do Estado de amanhã. Por exemplo o efeito estufa poderá conduzir a uma coordenação planetária para a redução de emissões, abrindo a porta a uma certa forma de mundialização do Estado.
1. Introdução
O público confia aos economistas um poder de influência, admirado ou invejado, louvado ou desconfiado, mas um poder de influência cuja reali*
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Texto pronunciado por ocasião da lição inaugural no Colégio de França em novembro de 2000.
Tradução de Delfim Gomes Neto e de Nicola Moreno Antunes.
Collège de France, Paris.
ECONOMIA, Niterói (RJ), v.5, n. 1, p. 8-33, jan./jun. 2004
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Roger Guesnerie
dade não está totalmente definida, pelo menos tendo em conta as declarações divergentes de dois representantes eminentes da profissão.
John Maynard Keynes, sem dúvida o economista mais célebre do século que termina, é categórico: as “idéias dos economistas e dos filósofos políticos, quer sejam justas ou falsas, são mais poderosas do que geralmente se pensa. Na verdade, não há muito mais que governe o mundo”, e, sem saber, os homens políticos,