TRAFICANTES DO EXCÊNTRICO
(D. MacRae., 1974)
"Plus généralement, la photographie peut être le prétexte à une libération de l'imagination, ou le plus souvent une tentative de compensation pour ceux qui ne peuvent plus ‘vivre que par le souvenir’, et la tentation du bovarysme lorsqu'on ne peut accéder au dépaysement en premiére personne."
(R. Castel, em Bourdieu, 1965)
Talvez seja uma ironia adequada a esta disciplina que se quer uma ciência do outro que ela tenha criado, em quase toda parte, tradições antropológicas nacionais fundadas por estrangeiros: Franz Boas nos Estados Unidos, Curt Nimuendaju no Brasil, Bronislaw Malinowski na Inglaterra. Seja como for que estrangeiro édefinido, de certa maneira, integrantes dessa tribo, somos todos estrangeiros (o que não é o mesmo que dizer, como Clifford Geertz, que "somos todos nativos"). Cada antropólogo que conta sua história pessoal relembra como veio de um outro campo do saber, de uma outra região de seu país, ou de outro, ou como perdeu qualquer outra referência inicial que possuía. Conta, em suma, como é um desenraizado, um ex-cêntrico (1). Ironias de uma tribo que talvez se defina, afinal, por pretender não pertencer a nenhuma outra que não a antropológica.
No caso brasileiro, se acrescenta ainda a esta ambigüidade, às vezes uma harmonia, às vezes um descompasso, entre ‘como pensamos' e ‘como nos pensam'. A trajetória brasileira da disciplina é, mais do que costumamos registrar explicitamente, parte tanto de seu percurso internacional, quanto do imaginário dos antropólogos em geral: lembrando de novo o exemplo de Geertz, é de Lévi-Strauss que ele está falando quando escreve "mito brasileiro" ao invés de seu nome (1983, p. 150). E, assim como os antropólogos inventaram "tradições tribais" para povos entre os quais elas não faziam sentido (Cf. Ranger,