Democracia
Evelina Dagnino UNICAMP − São Paulo − Brazil
Este trabalho tem como objetivo analisar os principais traços da trajetória recente dos movimentos sociais e a sua contribuição para a construção e o aprofundamento da democracia no Brasil. Durante a transição do regime autoritário para um Estado de Direito, um processo longo e controlado pelas elites que se inicia na metade dos anos 70, um amplo leque de movimentos sociais, que incluíram desde organizações de direitos humanos, movimentos urbanos que lutavam por serviços públicos, até Comunidades Eclesiais de Base ligadas à Igreja Católica, movimentos de mulheres, de negros, etc, contribuíram para que o processo de liberalização política ‘lento, gradual e seguro’ pudesse avançar para além dos limites imaginados pelo regime militar e seus aliados. Esses movimentos, articulados à oposição política à ditadura, ocuparam de forma criativa o escasso espaço político que restou depois que os militares eliminaram ou restringiram duramente os canais de participação e representação existentes. Além disso, foram capazes de criar novos espaços públicos onde os excluídos social, política e culturalmente pudessem reconstruir suas identidades, necessidades, interesses, e desafiar o autoritarismo, na política e na sociedade. Durante esse período, os movimentos sociais foram largamente saudados como formas ‘heróicas’ de ‘resistência’ à ditadura. Para alguns analistas progressistas, sua atuação anunciava ‘transformações sociais’ radicais.1 Mesmo análises mais convencionais da política de transição viam a ‘ressurreição da sociedade civil’2 em geral, e os movimentos sociais em particular, como forças importantes na resistência e erosão do regime autoritánio e na ‘reconstrução do espaço público’.3 Entretanto, a partir do retorno ao domínio civil em 1985, o papel real ou potencial dos movimentos sociais no alargamento e aprofundamento da democracia no Brasil