portugues a costureirinha
Foi em 1933 que Clotilde chegou a Lisboa, para servir numa casa de família. Ponderou-se o que havia de fazer, mas não havia muita esperança, a começar seria, como de tradição, pelo primeiro degrau da escada. Nova, saudável, ignorante das ruas e comércios de Lisboa, falando, quando falava, com sotaque beirão intransponível1, logo convenceu os senhores condes do Outeirinho que não servia senão para as grossas tarefas domésticas. Clotilde não tinha sonhos e não tinha ambições. Se não levava pancada, já andava contente. E se, para cúmulo, lhe davam de almoçar em dias certos, não pedia mais nada à porca da vida. Deve-se começar a suspeitar da existência de um filho nesta família. Há-o, de facto. Há mesmo dois filhos. O varão, recentemente casado com os bens de uma herdeira impertinente2, vivia esplêndido na Lapa e pouco aparecia na casa paterna. Dir-se-ia que o êxito da família que começara há pouco em Octávio Outeirinho, primeiro a usar o título de conde, se encarnava3 por inteiro nesse macho de sucesso. Mas não tivera oportunidade de vislumbrar4 a Clotilde a lavar as escadas ou em interessantes equilíbrios sobre escadotes. Meramente por isso lhe escapara – por ele já não estar presente. O filho segundo, Orlando, coleccionava fracassos, bebia, jogava e perdia. Andava metido com rufias e mulheres da vida. Dizia que tinha o sangue quente, não pensava antes de agir. Também não pensaria depois de agir. Privado da afeição de seu pai ao fim de um certo tempo, vivia de querelas e de rixas. Possuía um vocabulário de quatro palavras e três delas não se podiam reproduzir em público. Em resumo, era o deserdado, a ovelha ranhosa da família. Mas tinha um fraco pela Clotilde, que não se civilizara realmente nesses anos lisboetas, e ainda que esse fraco não bastasse para o redimir completamente, suavizou-lhe o carácter e fez dele um homem ligeiramente melhor. Alcançou extrair-se da casa da família e alugou um segundo andar com dois