O MITO DE NARCISO E ECO E ESPIRITUALIDADE
VERA LÚCIA SOARES CHVATAL
Em uma tranqüila tarde de domingo, mexendo em alguns papéis, encontrei uma poesia de Fernando Pessoa escrita em uma folha de caderno. Um amigo a escreveu há tempos atrás, quando estudávamos teologia juntos. Nessa poesia, Pessoa expressa sua angústia dizendo: “Tudo o que faço ou medito, fica sempre na metade! Querendo, quero o infinito. Fazendo, nada é verdade…” Quanta sabedoria nesses versos. Quem já não se sentiu desiludido, angustiado, fragmentado, entre seus desejos, seus sonhos e a dura realidade? “Por que te curvas, ó minha alma, gemendo dentro de mim?” (Sl 42,6) canta o salmista. Nossa alma anseia pelo infinito… E no livro da Sabedoria o hagiógrafo acrescenta: “nossa vida é a passagem de uma sombra.” (Sab 2,5) Nossa existência se caracteriza pela insatisfação, pela nostalgia, pela solidão, pelo desejo de completude e de perfeição. Somos seres finitos que almejam o infinito! E almejando a perfeição, queremos o Todo! Cecília Meireles diz: “Eu canto porque o instante existe e a minha vida está completa. Não sou alegre nem sou triste: sou poeta.” A poesia é uma linguagem universal. Ela consegue colocar em palavras os sentimentos humanos, tais como eles surgem. Em que pese a língua em que foi transcrita, a poesia fala ao coração humano, provocando ressonâncias que vai ecoando em profundidade pelos meandros da alma. A linguagem poética tem a capacidade de atingir de imediato as imagens da alma. Por isso, as palavras do poeta ressoam nos corações e mentes como um eco que vai reverberando longamente, conduzindo a imaginação por caminhos nunca antes pisados. Como os mitos antigos que, através de uma prosa poética, rica e imaginativa, falam do existir humano. O mito é uma intuição compreensiva da realidade, uma forma espontânea do ser humano situar-se no mundo. Ao entrar em contato com o mundo, o ser humano – antes de ser uma “cabeça que pensa”, um ser reflexivo, um ser racional – desenvolveu a