a partilha da vida - Brandão
Carlos Rodrigues Brandão
Esses escritos sobre os homens do campo são para José de Souza Martins.
São também para as pessoas de São
Luís do Paraitinga.
VINHETA DE CHEGAR
Aboiavam pai e filho
Poucos metros depois de saltar o ribeirão do Chapéu e tornar o caminho que vai do
Patrimônio de Catuçaba ao Bairro do Oriente, a estrada ruim de pessoas e tropas de burros escala um morro íngreme.
Subindo por ela em uma manhã de abril de 1983, ouvi e avistei, vinda de um outro morro ao lado, mais íngreme e verde, de pastos pobres entre capoeiras ralas de restos de matas, uma cena corriqueira na região. Mas eu decidi torná-la como o começo deste estudo sobre o mundo camponês e a lida de seus homens e mulheres.
Pai e filho montados em cavalo a pêlo desciam o morro, tocando algumas vacas magras e um potro branco em direção a um pequeno curral junto ao rancho e a um riacho.
Desciam os dois e com gritos iguais na música, diferentes no timbre, aboiavam o gado.
Gritavam ambos morro abaixo, ora juntos, ora sucedendo o canto sem palavras de um, o do outro. E o trabalho deles era, ali, a repetição dos seus gritos, do seu canto. O pai aboiava misturando tons de brados e a sua duração, percorrendo as sílabas de todas as vogais entre acentos graves e agudos. E algumas frases do canto do aboio findavam em gritos finos que, mesmo em falas sem verbos, o gado obedecia como a uma ordem. O filho aboiava nos silêncios do pai e, com falas inseguras de aprendiz, procurava cantar igual.
Quando ao fim do morro chegaram ao curral, o pai trocou a canção por assobios rápidos e eles eram agora a linguagem que ajudava os gestos do homem a encerrar no lugar
certo o gado reunido. O filho não sabia imitar os assobios do pai, mas sem parar insistia nos gritos finos do aboio, de tal sorte que a flauta do assobio fazia um novo dueto com o solo do canto naquela manhã. Muitos alqueires longe em qualquer direção, entre pastos e morros, tudo o que se podia