Utopia, linguagem oblíqua e narrativa viajante para Thomas More
Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas
Departamento de História
Disciplina: História das Ideias Políticas e Sociais
Professor Bruno Viveiros
Aluna: Camila Nunes Vieira Gonçalves
Utopia, linguagem oblíqua e narrativa viajante para Thomas More
Em “O novo espírito utópico”, Miguel Abensour desconstrói as leituras mais precipitadas de A Utopia, de Thomas More. O primeiro autor procura demonstrar que a contribuição deste clássico da filosofia política não se limita à indicação da melhor forma de governo, mas revela, por meio de seus recursos formais, as implicações da vivência política. A obra ultrapassa a proposição de modelos aos quais os governantes deveriam seguir, inaugurando uma linguagem que é, em si mesma, marcada pela conjuntura política, uma vez que a crítica ao Estado vigente e suas práticas poderia acarretar repressão. O mero questionamento, à época do fortalecimento dos reis, revela precisamente um dos principais alvos de reflexão de T. More: o governo tirânico. Segundo Abensour, A Utopia constitui a própria invenção de uma forma de escrita indireta, que tem por objetivo demonstrar que o esclarecimento acerca da política não está em uma aceitação passiva de uma ou outra forma de governo; mas no próprio exercício da reflexão. O leitor incauto tenta extrair algo diretamente do texto, o que o leva uma interpretação equivocada. No universo utopiano, um desvio interpretativo faz-se necessário, dada a linguagem oblíqua empregada por More. Este desvio desloca a atenção do leitor do conteúdo imediato da obra para a forma como ela é escrita, para as contradições e representações da narrativa. Algumas correntes de pensamento apropriaram-se da obra a partir de seu conteúdo mais imediato, usando-a como um pilar de sustentação para as suas proposições, principalmente no que concerne à sociedade dos utopianos, livre da ganância e da propriedade. Na Ilha de Utopia, as pessoas haviam superado os estados de