Rita Marquilhas - Filologia Oitocentista e Crítica Textual
Esquecimento. Act. 20. Lisboa, Húmus, pp. 355‐367, 2010.]
Filologia oitocentista e crítica textual
Rita Marquilhas
Universidade de Lisboa, Centro de Linguística
Segundo a perspectiva linguística, o termo “filologia” é um termo incomodamente ambíguo. Refere duas actividades intelectuais vincadamente diferentes, se bem que geneticamente relacionadas. A distância que as separa é tão lata que se tornou preferível nomear tais actividades com os rótulos de “filologia oitocentista”, a primeira, de “crítica textual”, a segunda1. Ivo Castro distinguia assim, há mais de vinte anos, as duas acepções em causa:
Não vejo a filologia, neste fim do séc. XX, como a esplêndida ciência que, no entender de Schlegel, compartilhava com a filosofia o conhecimento universal, nem como um método de melhoramento humano pelo aprendizado das obras dos clássicos, nem mesmo como a disciplina que consorcia a linguística com a literatura - tudo visões com pensamento e defesas articuladas e respeitáveis, e que devemos ter em conta para apreciar a produção científica de certas épocas e de certos autores.
Vejo-a, sim, como uma disciplina muito mais comedida [...] em ambições culturais, pois se limita ao exercício de uma missão deixada vaga pelas outras disciplinas da palavra e que é a de verificar se um texto que vai ser lido e interpretado dá garantias de estar tão próximo quanto é possível daquilo que o seu autor escreveu. (Castro 1984) 1 Isto
para além da filologia pré-oitocentista, que foi amor dos versos homéricos em Alexandria, amor dos textos gregos em Roma, amor da palavra de Deus na Idade Média, amor da palavra dos Antigos no
Humanismo Renascentista.
Aquela primeira, a “esplêndida ciência” filológica, nasceu no início do século XIX em ambiente romântico, numa Europa napoleónica onde despontavam novas nações, num clima de