portugues
Márcia Arbex | UFMG
Resumo: Este artigo propõe uma análise comparativa dos Exercices de style de Raymond Queneau e sua tradução por Luiz Rezende. Considerando o tradutor como um leitor e também um mediador cultural, refletiremos sobre a questão da tradutibilidade dos jogos de linguagem e a das representações; abordaremos os paratextos que envolvem a tradução brasileira no esboço de uma poética da tradução e observaremos que a tradução exigiu criações e recriações, tendo o tradutor por diversas vezes radicalizado e ampliado os efeitos dos jogos verbais do autor.
Palavras-chave: Tradução, jogos verbais, representação, Raymond Queneau,
Luiz Rezende, Oulipo.
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O eixo e a roda: v. 18, n. 1, 2009
Um détour pelas artes e os números
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roponho iniciar esta reflexão fazendo um breve paralelo entre os
Exercices de style (1947) de Raymond Queneau (Havre, 1903-1976) e o livro Un
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Cabinet d’amateur (1979), do também oulipiano Georges Perec, paralelo que visa sobretudo a nos aproximar da noção de tradução em jogo na versão brasileira.
Un Cabinet d’amateur narra a história de um homem de negócios e colecionador de arte, Hermann Raffke, que solicita a um suposto pintor americano de origem alemã, Heinrich Kürz, que faça seu retrato diante de sua coleção de obras de arte. O pintor americano reúne então em uma única tela mais de cem quadros, reduções minuciosamente executadas das obras do colecionador. O sucesso do retrato, entretanto, repousa, diz o narrador, numa “surpresa maravilhosa” que o torna mais que “a representação anedótica de um museu privado”. De fato, o pintor “incluiu o seu próprio quadro no quadro, bem como o colecionador sentado em seu gabinete, vendo na parede ao fundo, no eixo de seu olhar, o quadro que o representa no ato de contemplar sua coleção de quadros, e todos esses quadros
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novamente reproduzidos, e assim por diante