Não há dúvida, a psicologia é humana!
Aurea Maria de Azevedo Sugahara
Desde que decidi entrar nas tramas do pensamento psicológico, comecei a perceber uma certa indefinição epistemológica , uma dúvida velada a respeito da inserção da Psicologia num campo do conhecimento. Humanas? Biológicas? Médicas? Mais que uma dúvida, percebo uma certa tendência a negar-lhe a humanidade como se isto fizesse da Psicologia uma ciência menor. Atribuo estas mazelas a uma herança tacanha de um pensamento forjado no nascedouro das ciências particulares a partir da Revolução Científica no século XVII. O pensamento cartesiano está na base da constituição do ideal de cientificidade iniciado por Galileu e desenvolvido nos séculos seguintes. A matematização e o cientificismo fundam o ideal de cientificidade que proporcionará às nascentes ciências particulares o caldo de cultura necessário ao seu desenvolvimento. Ao dividir o mundo em substância pensante e substância extensa Descartes dará às ciências nascentes ( da Natureza) a liberdade necessária para o seu desenvolvimento pois as libertará das amarras do misticismo e da religião às quais estiveram atreladas durante tantos séculos. A geometrização do mundo retirou o véu que, segundo o próprio Descartes, ofuscava o conhecimento, retirou dele a subjetividade, imprimindo a objetividade necessária ao conhecimento científico. Estes fundamentos estarão na base de todo conhecimento e da concepção de racionalidade que definiram o pensamento ocidental durante os séculos seguintes. O pensamento racional nasce assim como busca da Verdade, o desenvolvimento desta concepção encontra sua forma plena no desenvolvimento do pensamento científico, na idéia de ciência enquanto elemento capaz de apreender a realidade e encontrar a Verdade. Dentro desta concepção de mundo é válido o que é científico e portanto racional. Assim, qualquer compo do conhecimento passa a ser válido e aceito se for científico, isto é, se tiver explicações