filosofia
1ª PARTE: SUSPEITA, CURIOSIDADE E INQUIETAÇÃO COMO FERRAMENTAS DE ANÁLISE DO CONHECIMENTO
1.1. Garabombo, el invisible
“Então todos comprovaram que Garabombo era verdadeiramente invisível. Antigo, majestoso, interminável, Garabombo avançou até o batalhão de choque que bloqueava a Praça de Armas de Yanahuanca. (...) Sem amedrontar-se, Garabombo rumou até as sentinelas. Na esquina, a angústia devastou os camponeses. Viam-no ou não o viam? (...)
_ Não o vêem, sorriu Amador Cayetano, o presidente da comunidade. É invisível!
_ Faz sete anos que é invisível, sussurrou Melecio Cuéllar.
Ninguém o via! Protegido por sua carne transparente, antes do anoitecer,
Garabombo se apoderaria dos planos secretos do batalhão de choque. (...)
_ Pai nosso que estás nos céus, faz que não vejam Garabombo - rezou Sulpicia.
_ Não seja boba, Sulpicia - exclamou Melecio Cuéllar -. Não o vêem! Garabombo pode comer e dormir a seu gosto. E se quiser urinará sobre os guardas. Crerão que está chovendo!”
Esse trecho do romance “Garabombo, El invisible”, do peruano Manuel Scorza, ilustra o objetivo dessa aula: mostrar como a inquietação, a suspeita e a curiosidade movem o conhecimento. Tomado como metáfora, a personagem Garabombo é um convite a prestar atenção àquelas coisas que não se vêem comumente; desconfiar que por trás das realidades conhecidas podem existir outros mundos.
Na estrutura do romance de Scorza, a invisibilidade de Garabombo é uma metáfora para a situação das pessoas oprimidas e deprimidas social e psiquicamente na sociedade peruana; Garabombo é a metáfora de quem não tem voz e nem vez. Como líder comunitário, Garabombo é um representante dos invisíveis sociais. Conta o livro que, num determinado momento, enquanto atravessava uma ponte, Garabombo se tornou invisível. Curiosamente, no entanto, seus companheiros, familiares e amigos o viam normalmente; mas seus oponentes, não. E aí está o enredo do romance: