Do que ouvi e li, anoto algumas coisas na memória . Alguma coisa que me incomoda fica um tempo mais . De algo atribuído por blogs da Internet à escritora Clarice Lispector surgiu-me a frase “ Não tenho tempo pra mais nada , ser feliz me consome muito ...”. Há variante em que o “ pra ” vira “ para ”, outra em que somem as reticências . O que há em comum é o impacto que causa o contraste em não ter tempo para algo diferente da felicidade ( mais nada ) com a felicidade que consome muito da alma que escreve ( me consome muito ). Dessa grande escritora, que no Brasil fez toda sua trajetória literária , posso precisar que li pouca coisa . Mas não posso crer que haja algo relacionado à felicidade que consuma alguém . A consumição identifica um gasto até o fim , uma total destruição . Será que podemos associar felicidade com essa conotação de acabar-se. Normalmente , consumir-se é de dor , raiva , desgosto , perturbações, ou seja, qualquer coisa negativa . Felicidade não costuma ser associada a noções com campo semântico tão vastamente negativo . O provocativo da frase atribuída a Clarice Lispector é justamente o choque que há entre anunciar que não se tem um tempo para quase nada , pois a felicidade já consome muito do tempo , aí poderíamos até entender o “ consumir ” num sentido que é diferente do usual . Veríamos a conotação de ocupar o tempo completamente . O inovador do “ me consome” é o que é intenso . Não quer a escritora dizer que está a consumir-se no sentido pior da consumição . Mas ela está a viver plenamente de felicidade , numa situação de graça tal que sente o tempo em si como fator de felicidade . Viver é sinônimo de felicidade . Então , o tempo todo é apenas de felicidade , não de nada além disso. O consumir-se não é destruir-se, mas transcorrer com o tempo numa sintonia única com a felicidade . Não há estado mais sublime , certamente . E o que levar ia a que pudéssemos estar , como nessa quintessência vivencial de