Eduardo Galeano Revisado
A trajetória de Eduardo Galeano
Fábio André Diniz Merladet
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Eu tinha ainda 12 anos e passava sempre as férias escolares na casa do meu pai, que é uruguaio. Ele saia para trabalhar e eu, sozinho, mexia em tudo na casa. Foi então que vasculhando os móveis e gavetas encontrei um livro velho e empoeirado chamado
El Libro de los Abrazos. Na época ainda não entendia muito bem o espanhol, mas aquele título encantador acendeu minha curiosidade, abri o livro em uma página qualquer e encontrei uma crônica que nunca mais pude esquecer:
El hambre/2
Un sistema del desvínculo: El buey solo bien se lame. El prójimo no es tu hermano, ni tu amante. El prójimo es um competidor, un enemigo, un obstáculo a saltar o una cosa para usar. El sistema, que no da de comer, tampoco da de amar: a muchos condena al hambre de pan y a muchos más condena al hambre de abrazos. (Galeano, 1989: 81).
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1. Introdução
Nascido em 03 de setembro de 1940 em uma família católica de classe alta da cidade de Montevidéu – Uruguai, Eduardo Hughes Galeano tinha o sonho de se tornar jogador de futebol:
Como todos os meninos uruguaios, eu também quis ser jogador de futebol. Jogava muito bem, era uma maravilha, mas só de noite, enquanto dormia: de dia era o pior perna-de-pau que já passou pelos campos do meu país. (Galeano, 1995: 9).
Em sua juventude trabalhou como pintor, desenhista, cobrador, caixa de banco, operário em fábrica de inseticida, diagramador e editor de jornais e revistas. Ainda na década de 60, com o objetivo de escrever sobre a América Latina, Galeano viajou por diversos países em busca de fontes documentais e relatos pessoais do sofrimento e da exploração a que estavam submetidos os excluídos. Nessa longa viagem Galeano sentiu que tinha a obrigação moral de encontrar uma forma de expressar a dignidade, o brutal sofrimento e a extraordinária beleza das vozes que conheceu. Esse compromisso com os vencidos e a tentativa de encontrar as palavras que façam justiça
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