500 anos do Brasil resumido
BRASIL: 500 ANOS
BRASIL: 500 ANOS
José Oscar Beozzo*
Os 500 anos da América, 1492-1992, foram precedidos de intensa mobilização dos povos indígenas do continente, aos quais foram se associando outros grupos e segmentos da sociedade para sinalizarem os “500 Anos de Resistência
Indígena, Negra e Popular”. Na esteira daqueles
500 anos, em muitos países, foram alteradas as Constituições, com o fito de reconhecerem o caráter pluriétnico e pluricultural de sua realidade, incluírem os idiomas indígenas no currículo escolar e reconhecerem o direito ancestral das comunidades e povos indígenas à terra, à própria identidade, às suas leis e costumes.
Os 500 anos da outra América, não a hispana, mas a portuguesa, a “Pindorama” (Terra das Palmeiras), na língua dos índios tupi, no ano 2.000, não parece suscitar o mesmo impacto nem o mesmo empenho de protesto e revisão histórica que marcaram tão fortemente as populações do
México, Guatemala, Equador, Peru, Bolívia e de muitos
* José Oscar Beozzo é historiador da Igreja, professor do Curso de
Pós-Graduação em História da Igreja na América Latina da Pontifícia
Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção e coordenador geral do CESEP — Centro Ecumênico de Serviço à Evangelização e Educação
Popular, São Paulo.
4 Ano II — Nº 5/99
ARTIGOS
outros países latino-americanos e caribenhos. Seria talvez porque, nestes países, as populações indígenas continuam formando a massa dos setores populares e mantendo identidade, memória e língua, constituindose, assim, até hoje, no dizer de Darcy Ribeiro, em “povos testemunhos”?
O Brasil, pelo contrário, seria um caso típico, de “povo novo”, resultado de um processo de amalgamento e fusão de diferentes povos e raças e cujos setores populares são o resultado, não tanto da anterior população indígena, mas da avalanche de escravos negros (cerca de 3,
6 milhões) trazidos da África, ao longo de mais de três séculos e mantidos em regime de escravidão até ontem praticamente? A